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AUTO-AVALIAÇÃO PROMOVE AUTONOMIA

PROJETO DO CENTRO PAULA SOUZA, PREMIADO NA CATEGORIA “GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS”, ESTIMULA A MELHORIA CONTÍNUA DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL
POR VALDETE DE OLIVEIRA

Tal como empresas modernas e competitivas que adotam novos e sofisticados modelos de gestão para alcançar boa governança e excelência na qualidade de seus produtos e serviços, o Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza (órgão vinculado à Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo), que administra uma rede de 108 escolas técnicas públicas e vinte faculdades de tecnologia, inovou ao adotar um modelo de avaliação que delega a cada uma de suas unidades de ensino a condução do próprio processo de avaliação. Por meio do novo sistema de auto-avaliação, o Centro Paula Souza busca atrair a participação de toda a comunidade escolar, para que a unidade aperfeiçoe sua forma de gestão e conquiste melhorias contínuas da qualidade da educação profissional que oferece.

A principal vantagem desse novo sistema de auto-avaliação, baseado nos princípios da gestão pública da qualidade, é dar autonomia às escolas para que estimulem docentes, alunos, funcionários administrativos e os de apoio a conquistarem um ambiente organizacional eficiente e saudável. O sistema de avaliação das escolas técnicas, conhecido no meio escolar como Observatório, existe há oito anos, mas ganhou o atual formato apenas a partir de 2004. Pelo formato anterior, cabia aos representantes da Coordenadoria de Ensino Técnico (Cetec) conduzir o processo de avaliação, restringindo praticamente apenas à diretoria a participação das escolas. A professora responsável pelos projetos da Coordenadoria de Ensino Técnico do Centro Paula Souza, Ivone Marchi Lainetti Ramos, diz que o objetivo buscado com a auto-avaliação não é criar um ranking daquelas que apresentarem o melhor desempenho, tampouco penalizar as escolas com desempenho abaixo da média. Ao delegar às equipes escolares a execução do processo, busca-se favorecer a gestão participativa e a maior integração da comunidade escolar, fortalecer seu compromisso com o ensino, a aprendizagem e a cidadania, e criar uma cultura de auto-avaliação no ambiente escolar.

“Cada escola fará comparações apenas com ela mesma, com o seu desempenho apresentado a cada ano, até porque cada uma delas tem estruturas físicas, humanas e regionais diversas. O essencial não é que se atenha às práticas exigidas e ainda não cumpridas, mas que entenda o processo como uma oportunidade para fazer melhorias”, assinala. O Centro Paula Souza disponibiliza uma média do desempenho alcançado pelas escolas para que sirva apenas como referência e estímulo à adoção de melhorias.

Segundo Ivone Marchi, a auto-avaliação permite às escolas técnicas, orientadas por um roteiro elaborado pela Cetec, fazerem um diagnóstico detalhado das suas atividades e traçarem as estratégias mais apropriadas e os aperfeiçoamentos necessários. Outro ganho, observa, é a autonomia que cada escola adquire ao longo do processo. Isso porque deve fazer um mapeamento das práticas que adota e delegar funções à comunidade escolar, o que resulta em gestão participativa, em conhecimento maior do seu potencial e em maior liberdade para criar alternativas de melhoramento.

O que é avaliado

O roteiro da auto-avaliação é o mesmo utilizado em todas as unidades escolares. Ele avalia as práticas adotadas nas escolas com base em sete meios de gestão. A gestão didático-pedagógica refere-se ao modo como se dão a atualização e o enriquecimento do currículo escolar, a pedagogia dos cursos oferecidos, e a inclusão na pauta das reuniões pedagógicas de discussões sobre recursos utilizados (internet, jornais, revistas, livros, obras de arte, filmes, dentre outros), para facilitar o ensino e a aprendizagem em sala de aula.

Quanto à gestão do espaço físico, são avaliados, por exemplo, os cuidados com as áreas externas e de circulação (pátios, corredores e outros espaços), a organização de espaços para a exposição permanente de trabalhos dos alunos e da comunidade, a adaptação de banheiros e outros espaços para atender a pessoas com necessidades especiais, ou ainda as condições de segurança e uso de instalações elétricas e hidráulicas.

Cada escola deve auto-avaliar-se, também, considerando aspectos da gestão participativa, que observa como a comunidade escolar participa da escolha das metas e dos projetos do Plano Escolar anual, como as decisões do Conselho de Escola são divulgadas para o conhecimento de todos, como se dá a participação da comunidade escolar na elaboração de pautas em reuniões da direção sobre assuntos pertinentes à gestão escolar, ou – ainda – se a escola conta com alunos monitores em todos os cursos para desenvolver atividades em laboratórios e coordenar grupos de estudo ou oficinas de leitura, ou se o balancete mensal e outras informações de prestação de contas ou de interesse da comunidade escolar são amplamente divulgados.

Outro ponto avaliado é a gestão de pessoas, que computa se a escola dispõe da quantidade de professores que necessita, se promove eventos para discutir a prática pedagógica e para reformular as diretrizes estabelecidas, visando à melhoria dos processos educativos, ou se a escola promove eventos que integrem alunos, pais, professores e funcionários administrativos. A avaliação da gestão de documentos refere-se aos serviços de atendimento prestados pela secretaria, à organização do acervo de documentos e à conformidade legal dos registros de alunos e professores – ou seja, ao modo de gerenciamento das informações cadastrais da comunidade escolar e ao prazo de atendimento das solicitações feitas.

Por fim, são feitas auto-avaliações de aspectos relacionados à gestão de parcerias – que observa se a escola estabelece parcerias com outras instituições, públicas ou privadas, para desenvolver atividades conjuntas – e à gestão dos serviços de apoio – que avalia os serviços de segurança, limpeza, da biblioteca, dentre outros, e a aplicação dos recursos disponíveis.

Transparência

A diretoria da escola é responsável por envolver a comunidade escolar no processo e por garantir os recursos para a implementação do processo. Cada unidade deve constituir um Colegiado, formado por no mínimo sete e no máximo onze representantes, com participação de docentes, alunos e corpo administrativo. Cada Colegiado tem ainda um representante para coordenar as atividades. Ao final dos trabalhos, um relatório deve reunir as informações sobre as práticas adotadas, os projetos de melhoria sugeridos e, eventualmente, sobre os motivos de ainda não terem sido adotadas certas práticas. Esse relatório deverá ser validado por uma equipe de profissionais da Cetec, em consenso com o Colegiado de cada escola.

Para Mauro Araújo Gut, diretor da Escola Técnica Estadual Vasco Venchiarutti, de Jundiaí, o novo método trouxe transparência e maior correção ao processo de avaliação. A formação de um Colegiado para coordenar as atividades torna o processo mais democrático e elimina a tensão verificada em processos fechados, cujos critérios de avaliação não são claramente colocados. “Temos agora uma maneira mais 'elegante' para trabalhar, que nos permite fazer autocríticas e sugerir mudanças. A tendência é que as escolas se esforcem ainda mais, para manter as práticas que são positivas e modificar o que não está adequado.”

Exemplo na Zona Leste

Humberto Pissarro, professor do curso de Administração do Centro Tecnológico da Zona Leste de São Paulo, chama a atenção, também, para o expressivo crescimento do “espírito participativo” após o processo de auto-avaliação, o que está causando uma mudança cultural na comunidade escolar. “Passamos não apenas a falar de qualidade em salas de aula, mas a praticá-la. A busca pela qualidade não é um modismo, ela veio para ficar.” Ele diz que o roteiro da auto-avaliação é o “livro de cabeceira” dos responsáveis pela implementação, preocupados em encontrar soluções, e não “culpados”.

O Centro Tecnológico da Zona Leste tem perfil singular, já que é o único centro que oferece a mesma estrutura física e de serviços em suas escolas técnicas e faculdades de tecnologia, as Fatecs. A Escola Técnica Estadual São Paulo também mantém escolas técnicas e Fatecs, mas as aulas são ministradas em salas diferentes.

A partir deste ano, o Centro Paula Souza pretende estender às Fatecs o sistema de auto-avaliação. A idéia é criar um modelo específico para elas, cujas necessidades de aperfeiçoamento são diferentes daquelas verificadas para as escolas técnicas, lembra Ivone Marchi, da Coordenadoria do Ensino Técnico.
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