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Bárbara do Amaral já tinha 1 ano de idade quando “nasceu de novo”, a exemplo do ditado popular que se refere a pessoas que passaram por situações de perigo de morte e escaparam. Ela e o irmão, Emerson, então com 2 anos, foram resgatados de um quarto em chamas no segundo andar de uma casa na comunidade da Vila Dalva, periferia da zona oeste de São Paulo. “Eles já estavam asfixiados pela fumaça”, relata o engenheiro José Carlos Tomina, coordenador do Programa de Segurança contra Incêndio em Assentamentos Urbanos Precários.
Manhã de 4 de dezembro de 2004. Bárbara e Emerson estavam sozinhos em casa. A avó, Vilma Maria dos Santos, 49 anos, havia saído 15 minutos antes para comprar material de limpeza em uma mercearia a poucos metros de onde mora com a família. Nesse meio tempo, Emerson, que estava vendo televisão com a irmã, acendeu um fósforo, e o fogo se alastrou pelo colchão da cama de casal em que estavam deitados. O garoto escondeu-se embaixo da cama. A menina correu para um vão entre um armário de madeira e a parede, e lá ficou. As marcas do fogo ainda são visíveis nas paredes.
“Eu não tinha idéia de que aqui na favela tinha equipe de brigadista. Fiquei sabendo na hora do desespero”, relata Vilma. Do momento em que os vizinhos identificaram o problema e começaram a gritar “fogo” até que o incêndio fosse controlado e as crianças salvas, passaram-se 30 minutos. “Se as crianças não tivessem sido retiradas da casa rapidamente, teriam morrido”, diz Tomina.
O Programa de Segurança contra Incêndio em Assentamentos Urbanos Precários foi criado em 2003 por iniciativa do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), para formar bombeiros comunitários, chamados de brigadistas, em locais vulneráveis a esse tipo de acidente. O objetivo é que eles sejam capazes de controlar as chamas – ou até mesmo apagá-las – até a chegada do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil. Como moram na comunidade, podem deslocar-se com facilidade até o local do acidente. Costumam chegar a tempo de salvar vidas e reduzir o prejuízo material causado pelas chamas.
O projeto é fruto da parceria do IPT com outras instituições e empresas: o Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo; a Prefeitura Municipal de São Paulo; os centros comunitários das localidades beneficiadas; a Associação Brasileira das Indústrias de Equipamentos contra Incêndio e Cilindros de Alta Pressão (Abiex); a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT); a Universidade de São Paulo; e as empresas Machado, Meyer, Sandacz & Opice Advogados, DDIC Inteligência Coletiva e Ultragaz.
Os que vivem em favelas
Estudo feito pela Prefeitura de São Paulo mostra que, entre 1991 e 2000, o número de pessoas que vivem nas favelas da capital aumentou de 891 mil para 1,1 milhão – um crescimento de 30,1%. A quantidade desses núcleos urbanos saltou, no mesmo período, de 1975 para 2018. A pobreza é um dos fatores que tornam essas moradias vulneráveis a incêndios – em 2003, segundo dados do Corpo de Bombeiros, 82 favelas foram atingidas por incêndios, resultando em 364 vítimas salvas e dezessete vítimas fatais.
“Se shopping center e condomínio de classe média têm brigada de incêndio, por que não introduzir o serviço em favelas?”, questiona Tomina. O projeto-piloto foi implantado na Vila Dalva e em cortiços da rua Sólon (zona central). Um ano depois, quando a Prefeitura de São Paulo contratou o Instituto, o programa foi expandido para outras quatro favelas – Jardim Jaqueline (zona oeste), Jardim Cabuçu (zona norte), Maria Cursi (zona leste) e Viela da Paz (zona sul). Nessa segunda fase, foram treinados 64 funcionários municipais para que pudessem replicar o curso nas comunidades. O objetivo é treinar, neste ano, mais 31 funcionários.
Mobilização
Sandra Lúcia Martins, 44 anos, moradora da Vila Dalva, é uma espécie de líder informal dos brigadistas da favela – ela promove encontros para manter o senso de equipe e lembra a todos as boas práticas, como deixar o equipamento em local de fácil acesso. “Não basta fazer o curso e receber equipamento. Tem que estar presente”, diz Sandra, que comanda com mão de ferro e sorriso largo o vaivém dos bombeiros comunitários. Um dos aspectos mais importantes das lições repassadas nos cursos de brigadistas comunitários é justamente mantê-los mobilizados para que atuem com agilidade.
Na Vila Dalva, moram aproximadamente 2200 famílias. Dessas, pelo menos quatrocentas vivem nas áreas de maior risco, onde os barracos são de madeira e a fiação elétrica é completamente exposta. Há 65 moradores treinados e equipados para apagar incêndios de pequenas proporções. No fim do ano passado, foram capacitados mais doze para substituir os que haviam deixado o grupo. Os brigadistas da Vila Dalva já apagaram dezessete incêndios. “Quando os bombeiros chegam aqui é para nos dar parabéns”, orgulha-se Iracema Gregório, 20 anos, uma das “bombeiras” da favela.
Iracema conta de um incêndio que apagou na casa de Neide Siqueira – um episódio considerado complexo pela equipe do IPT. Neide havia enfeitado sua casa com um cordão de lâmpadas, típico do Natal. O fio foi conectado a uma tomada localizada debaixo da cama do casal e foi estendido até a parede externa da casa. Quando o cordão pegou fogo, as labaredas chegaram até o quarto do casal. O colchão foi tragado pelas chamas e, para agravar, havia uma lata de tinta – que é um material altamente inflamável – dentro do quarto.
O dono da casa tentou apagar o fogo, sem sucesso, com baldes de água. “Ele ficou desesperado e começou a gritar 'você tem que dar um jeito nisso' e a me empurrar para o fogo”, lembra Iracema, que chegou ao local munida de dois extintores e acompanhada de quatro brigadistas. “Incêndio é uma situação que, em princípio, está totalmente fora de controle, por isso é preciso ter muita calma”, ensina ela.
Christiane Nista, técnica do IPT, ressalta que, no caso do incêndio na casa de Neide, os brigadistas da Vila Dalva tiveram que se superar. Ela lembra a máxima que vive repetindo em seus contatos com a comunidade: “se o brigadista perde o respeito pelo fogo, vira vítima”. Por isso, diz a técnica, não é apenas normal, mas até saudável, ficar-se tenso na hora de socorrer um vizinho que está com a casa em chamas. O curso de preparação, que dura 20 horas, divididas em cinco aulas práticas e teóricas, estabelece uma série de procedimentos que devem ser seguidos pelos bombeiros comunitários, a fim de evitar o pânico. Sim, porque quando há fogo na comunidade os adultos gritam, as crianças choram e os cachorros latem por causa da barulheira.
“Não é fácil controlar o nervosismo das pessoas – quem vem chamar você em casa quer que você o atenda correndo e saia com a roupa do corpo, para apagar o fogo”, diz Julio César Ponceno, 20 anos, um brigadista que se orgulha de vestir o “aparato” completo em 20 segundos. Os bombeiros comunitários dispõem de dois extintores de incêndio e equipamentos de proteção individual: uma capa vermelha confeccionada em tecido antichama, óculos com lentes apropriadas, luvas, capacete e botas.
O aviso de incêndio na Vila Dalva e demais comunidades é feito por meio da tradicional “rádio cipó”: um vizinho grita e a notícia chega em minutos até a casa de alguém da brigada comunitária. Avisado, o brigadista tenta obter informações sobre a ocorrência enquanto veste o uniforme, pega os extintores e pede para alguém chamar imediatamente outro colega, já que o trabalho é feito em dupla. Outro morador liga para o Corpo de Bombeiros e registra a ocorrência. Por tudo isso, diz Julio, “temos que treinar sempre. Não podemos guardar o equipamento em cima do armário”.
Adaptação
Um dos aspectos mais inovadores do Programa de Segurança contra Incêndio é que ele opera nas favelas exatamente do jeito como elas são: superlotadas e sem estrutura urbana. “O programa foi pensado para funcionar em situações de risco. Os barracos são precários e podem pegar fogo a qualquer momento. O que temos que fazer é preparar o brigadista da melhor forma possível”, diz Tomina.
A escolha dos extintores de incêndio usados nas favelas ilustra a preocupação em adaptar o programa à realidade da favela e de seus moradores. O IPT usa um extintor universal adequado a todos os tipos de ocorrência. Isso possibilita que analfabetos ou pessoas que lêem com dificuldade não precisem decifrar o rótulo dos equipamentos para distinguir em que situação devem ser usados.
A lógica da adaptação à comunidade está incorporada na rotina do programa. “Não adianta esperar que as pessoas usem botijão de gás de forma mais segura. Nosso papel é treinar os brigadistas para apagá-lo quando estiver em chamas.”
Implantar uma brigada de cinqüenta membros, incluindo capacitação e equipamentos, custa R$ 46 mil. E dentre as aulas práticas mais complicadas está justamente aquela que ensina a apagar o fogo de um botijão – uma das principais causas de incêndio em favelas. |