SALTOS DE QUALIDADE
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ESPECIALISTAS FALAM DO PRÊMIO MARIO COVAS E DA FUNÇÃO ESTRATÉGICA DAS PREMIAÇÕES PARA O APERFEIÇOAMENTO DA GESTÃO
POR CRISTINA PENZ
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Os entrevistados desta edição – integrantes das várias bancas montadas para selecionar e julgar os projetos inscritos ao Prêmio Mario Covas 2005 – reuniram-se para conversar sobre os diversos aspectos relacionados ao tema da premiação – objetivos, potencialidades, dificuldades, perspectivas. Ana Maria Rutta, consultora e ex-superintendente geral da Fundação Nacional da Qualidade [www.fpnq.org.br], e Alvaro Martim Guedes, professor-doutor da Unesp de Araraquara, participaram da banca de julgamento de projetos nas categorias “Atendimento ao Cidadão”, “Gestão de Recursos Humanos” e “Eficiência no Uso dos Recursos Públicos e Desburocratização”. Fátima Justo Cortella, docente da Fundap, fez parte da banca que selecionou os finalistas dessas categorias. Nicolau Reinhard, professor-doutor da FEA-USP e consultor da Fundação Instituto de Administração (FIA), coordenou o julgamento dos projetos na categoria “Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação”. Leia uma síntese das análises feitas |
> O Prêmio Mario Covas, assim como outras iniciativas semelhantes, tira do anonimato equipes inovadoras e estimula a busca de aperfeiçoamentos na administração pública. Como vocês avaliam ações desse tipo?
Ana Rutta . Minha experiência com prêmios de gestão – especialmente com o Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ), mas não só com ele – ensinou-me que os candidatos, à medida que registram suas experiências, vão fazendo uma auto-avaliação. Ao descreverem seus projetos, conseguem identificar quais são as melhorias que têm de ser feitas. No caso do PNQ, cujo objetivo é alcançar um padrão de excelência – explicitado em uma série de critérios de avaliação –, os candidatos sentem-se estimulados a entender seu negócio e a melhorar seu desempenho. Espera-se que consigam incorporar os fundamentos da excelência em sua gestão, trabalhar na melhoria de seus processos com foco nos critérios do prêmio.
A premiação torna-se, portanto, um processo de ensino e aprendizagem. E pode também gerar conhecimento sobre a gestão. Em 1998, por exemplo, o PNQ buscou identificar qual seria o ponto mais importante a se focar, a fim de ajudar as empresas a melhorarem sua gestão. Naquele ano, examinamos o comportamento de todas as organizações participantes segundo os vários critérios do prêmio, e vimos que existia um ponto de inflexão na curva de pontuação. Em um dado critério – o de “informação e análise”, que envolvia o mapeamento dos indicadores de desempenho da organização –, todos “derrapavam na curva”. Examinamos o comportamento nos anos anteriores; tinha acontecido a mesma coisa. Isso motivou um estudo. O que se poderia oferecer em termos de métodos e das melhores práticas, para as empresas? No meu entendimento, a premiação ajuda a identificar qual conhecimento cabe desenvolver, aprimorar e disseminar.
No caso do Prêmio Mario Covas, há uma oportunidade de se buscar o que realmente interessa para a administração pública em termos de inovação, de formação de parcerias etc. Para que o prêmio possa evoluir e amadurecer, deve-se, portanto, procurar aperfeiçoar sempre seus conceitos e critérios, tornando-os cada vez mais compreensíveis pelos candidatos.
Nicolau Reinhard. Perguntei a vários concorrentes o que os tinha motivado a participar do prêmio. A honra de ser premiado? A visibilidade? Muitos disseram que precisavam desse reconhecimento para obter credibilidade e legitimação em seus órgãos. “Agora sim, posso dizer no meu órgão: 'meu projeto era bom, foi reconhecido externamente'”, falaram alguns finalistas. A legitimação do trabalho, proporcionada pela premiação, é um fator muito relevante.
Alvaro Guedes. É verdade, é muito importante o reconhecimento pelos pares. Essas são transformações que surgem de dentro. Veja-se o histórico das reformas administrativas no Brasil. Nenhuma delas ocorreu de forma endógena, foram todas exógenas. Todas vêm por força normativa, mudança de contexto, de conjuntura. Reconhecimento não é, portanto, uma questão qualquer. Quando um servidor público quer “fazer mais”, contrapõe-se a ele toda uma cultura interna que diz “não faça”, e que desqualifica a iniciativa. Aqueles que melhoram sua atuação por profissionalismo devem ser reconhecidos.
Tomemos como exemplo os hospitais, que têm recursos do Estado, do SUS. Eles compartilham os mesmos condicionantes, iguais recursos, a mesma formação do pessoal, os mesmos salários. E, no entanto, há casos em que tudo funciona melhor. O que acontece? A premiação pode revelar as qualidades da gestão.
Modernizar o Estado não é só melhorar aquilo que se faz como rotina, não é só aprimorar procedimentos. É preciso dar saltos de qualidade. Um prêmio pode dar o devido destaque a ações particularmente criativas, que sirvam de referência para os outros. Há idéias simples, mas de grande impacto. É o caso, por exemplo, do trabalho que uma equipe da Secretaria da Fazenda inscreveu, a Segunda Via Eletrônica [o projeto ganhou menção honrosa]. Poucos Estados no Brasil conseguiriam desenvolver autonomamente um projeto como aquele.
O mais importante é chamar a atenção de todos para casos em que se aliam eficiência, eficácia e efetividade.
Fátima Cortella. O prêmio pode também estimular a compreensão dos processos de trabalho. É interessante fazer uma comparação com o Programa de Desenvolvimento Gerencial, que se iniciou em 2004 e é dirigido aos gestores públicos. Faço parte do corpo docente e observo que tem havido uma evolução, que também se manifesta no Prêmio Mario Covas, que é dirigido ao mesmo público.
Convidamos os alunos a descrever seus processos de trabalho. Muitas vezes vem como resposta uma descrição das atividades, das tarefas. É preciso então desenvolver um novo olhar – daquele do tarefeiro para o de alguém capaz de entender quem são os clientes internos e externos e como devem ser feitas as entregas para a sociedade.
Nicolau Reinhard. Faço parte do Comitê Gestor do Conip, o Congresso Informática Pública [www.conip.com.br]. No Prêmio Conip de Excelência em Informática Aplicada aos Serviços Públicos, a tendência é premiarmos o produto do trabalho, o sistema que é produzido, os efeitos que ele gera. Não obstante, em informática, freqüentemente a razão do sucesso não está no desenho do produto, mas no processo pelo qual ele é viabilizado. A Intragov, por exemplo [que recebeu o Prêmio Mario Covas em 2004], olhada do ponto de vista de um produto, não tem nada de inovador. Qualquer grande empresa tem uma grande rede interna. O mérito da Intragov foi fazer com que os parceiros juntassem seus recursos para viabilizá-la. Foi um exercício de engenharia política muito bem-sucedido. É preciso evidenciar o processo, que é, às vezes, muito mais crítico. No PNQ se atenta para o processo ou para o produto?
Ana Rutta. O processo também é muito importante. Há um critério que se baseia exclusivamente na descrição da gestão dos principais processos do negócio e dos processos de apoio. |
> O Prêmio Mario Covas avalia pequenos e grandes projetos. Isso pode ser considerado um problema, neste ou em qualquer prêmio?
Nicolau Reinhard. Na área de TIC, os trabalhos que obtiveram maior pontuação relacionavam-se a instituições bem-estruturadas, que estavam conduzindo projetos de grande porte. Eu diria que são premiados pelo conjunto da obra. Os projetos pequenos ficam de fato em desvantagem, porque seu alcance é local, seus recursos são mais limitados.
As regras do prêmio abrem espaço para a diversidade que queremos abranger? No caso de informática, partimos de aplicações para aumentar a eficiência operacional até aplicações para aumentar a eficácia e a efetividade, aplicações que promovem a cidadania. É um espectro muito amplo. Isso é uma vantagem. Assim como estão, creio que os critérios nos permitiram avaliar essa diversidade. Se engessarmos muito o processo, podemos eliminar as pontas, onde estão os projetos menores, que queremos continuar recebendo.
Em 2005, dentre os trabalhos mais bem avaliados, estava o sistema de gestão do programa Escola da Família [vencedor na categoria], um grande projeto. Mas cabe contrapor outro trabalho que recebeu menção honrosa, o SOS Paraíba do Sul. Uma escola pública estadual e seus professores articularam os alunos para fazer uma pesquisa de dados sobre a poluição do Rio Paraíba do Sul. Articularam-se com outras escolas, com a Sabesp, com a Cetesb, montaram postos de medição da poluição. E criaram um ambiente virtual para colaboração. Era um projeto pequeno.
Há projetos notáveis se for considerado um critério particular. As regras do prêmio devem garantir espaço para destacar isso.
Ana Rutta. Também no PNQ, as grandes empresas têm mais facilidade, mais recursos – financeiros, humanos, tecnológicos, de conhecimento – para descrever sua gestão segundo os oito critérios. São 26 itens de avaliação. Cada relatório tem cerca de 75 páginas. Para uma empresa de pequeno porte, isso é muito difícil. Há uma perda de densidade. Para estimulá-las, criou-se uma rede de premiações no Brasil, simplificando o PNQ. São os mesmos critérios, mas não se exige a excelência no desempenho. A empresa não será o benchmark, mas poderá demonstrar o que está fazendo para melhorar seu desempenho. O roteiro é mais simples e tem uma dupla finalidade: estimular as empresas a se estruturar de acordo com esse arcabouço e, ao mesmo tempo, a fazer um diagnóstico da sua gestão.
Pequenas e grandes empresas ficam em categorias diferentes. Há três anos, levou-se para dentro do Sebrae uma premiação, o Prêmio de Competitividade da Micro e Pequena Empresa, que nada mais é do que o PNQ traduzido para a microempresa.
A experiência é muito rica. As empresas menores baseiam-se nesses critérios para medir sua performance. Algumas se inscrevem todos os anos, recebem o feedback – um relatório produzido por avaliadores voluntários, destacando os pontos fracos e fortes – e fazem a revisão de seus processos. É muito dinâmico para a organização, que vai seguindo uma trajetória de aperfeiçoamento da gestão.
Nicolau Reinhard. Penso no PNQ como um processo de educação e desenvolvimento. E diria que o Prêmio Mario Covas está muito mais voltado para identificar boas práticas e divulgá-las.
Ana Rutta. O PNQ também busca identificar as melhores práticas. As organizações vencedoras servem como modelo, em todas as áreas da gestão. |
> E que estratégias podem ser adotadas para disseminar as melhores práticas?
Ana Rutta. No caso do PNQ, as empresas vencedoras estabelecem um cronograma para receber visitas de profissionais interessados. Esta é uma forma de divulgar suas práticas.
Nicolau Reinhard. Na área de TIC, é mais usual as equipes exporem seus projetos em eventos, congressos, seminários.
Alvaro Guedes. Na área de gestão pública, eu apontaria um grande desafio: promover o encontro entre acadêmicos e profissionais que atuam na administração pública. É importante forçar essa integração, e o Prêmio Mario Covas pode ser um canal para isso. Uma parceria com a Fapesp e com as universidades poderia enriquecer essa ação. Há carência de casos documentados para serem discutidos nas universidades, nas salas de aula. > |
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| A partir da esquerda, Nicolau
Reinhard, Ana Maria Rutta, Fátima
Cortella e Alvaro Martim Guedes |
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