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BEM-VINDOS AO SETOR PÚBLICO

UM PLANO DE ESTÁGIO ADEQUADO, TAREFAS DESAFIADORAS E SUPERVISÃO CONSTANTE ASSEGURAM UMA BOA EXPERIÊNCIA PARA QUEM FAZ ESTÁGIO EM ÓRGÃOS PÚBLICOS

POR ESTANISLAU MARIA

Estudante do último ano de Farmácia, Vinicius Menezes dos Santos, 25 anos, faz estágio em um dos maiores laboratórios do setor farmacêutico instalados no Brasil, com capital nacional – e 100% público. Vinicius integra a equipe da Fundação para o Remédio Popular (Furp) e é um dos cerca de 4 mil estudantes que estagiam em órgãos da administração direta ou indireta do Estado de São Paulo, no âmbito do Programa de Estágios administrado pela Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap). Vinicius avalia que vem aperfeiçoando seus conhecimentos além do que esperava antes de começar as atividades. “É uma indústria que segue um padrão de excelência e não fica nada a dever aos laboratórios estrangeiros e privados. Na Furp, tenho a garantia de que vou aprender”, afirma o futuro farmacêutico. Iracema Aparecida Silva Paes Carneiro, chefe de desenvolvimento de recursos humanos e coordenadora dos planos de estágio na Furp, explica que o laboratório é disputado porque conta com moderna estrutura. “Temos um diferencial que é a oportunidade de operar com novas tecnologias. Nossos estagiários saem com um ótimo currículo”, afirma ela.

Marcelo Neto Serra, 21 anos, estudante da Fundação Getúlio Vargas, cursa Administração Pública e, por isso, precisa necessariamente cumprir seis meses de estágio no setor público. Poderia estagiar nas secretarias da Fazenda ou do Planejamento, mais relacionadas com sua formação, mas preferiu a Secretaria da Saúde para, como ele mesmo define, “perder o vício do administrador que vê muitos números, custos e planilhas, mas não enxerga as pessoas”. Ele é um dos estagiários do programa Talentos para a Gestão Pública, também gerenciado pela Fundap. Pesou em sua escolha o plano de estágios da Saúde. “Achei que era uma proposta bem estruturada. Tinha um programa estabelecido para o estágio, com objetivos por fases, e a definição do que eu iria fazer. Pensei: deve ser bem organizado”, explica Marcelo.

O estudante vem trabalhando em uma pesquisa que resultará em diagnóstico dos custos e gastos da saúde pública em São Paulo. “É uma oportunidade única de conhecer o sistema e apontar saídas que possam melhorar a vida de quem procura o posto de saúde, o remédio gratuito ou espera na fila de um hospital público”, entusiasma-se o futuro administrador. “Estou numa área inimaginável. Uma coisa diferente para o pessoal da FGV. Tenho autonomia, me sinto ‘dono' do projeto. É óbvio que sei pouco, mas tenho acompanhamento contínuo do supervisor, e converso diretamente com médicos, uma fisioterapeuta e uma dentista, ambas especialistas em administração de saúde pública.” Marcelo não esconde que sonha com um cargo público no futuro. “Político de preferência, eletivo. Apesar de desgastado hoje, acho um papel fundamental e gostaria, sim, de exercer, se aparecesse uma chance”, confessa o estudante.

Érica Macedo Souza, 20 anos, faz estágio na Ouvidoria da Casa Civil, sob a supervisão da ouvidora Elza Bittencourt Rubio. Ela é estudante do primeiro ano do recém-criado curso de Gestão de Políticas Públicas, do Campus Leste da USP. Estagiar em um órgão-núcleo de governo e em uma área de grande interação com o público equivale a um estimulante “choque de realidade”. Segundo a ouvidora, Érica usufrui da oportunidade de iniciar-se no mundo do trabalho – “afinal, os estudantes têm muitas idéias e opiniões, mas pouca experiência” –, e ter uma visão de como se estrutura o setor público é valioso para quem se prepara para ingressar neste segmento do mercado. “Na verdade, para mim é muito difícil lidar diretamente com os cidadãos que procuram a Ouvidoria, não tenho muita paciência. Recebo orientações o tempo todo”, diz Érica. “No futuro, pretendo atuar em uma área diferente, como a financeira, por exemplo.”

Para Elza, que trabalha com equipe reduzida, a contribuição de Érica é imprescindível: “Ela atende as chamadas, redige rascunhos de respostas, lê e resume cartas. Está aprendendo a compreender as demandas dos cidadãos, e isso é necessário para qualquer um que esteja no setor público”. Érica reconhece a importância da Ouvidoria e se dedica ao máximo. Seus motivos para isso não são apenas pessoais: “Somos vários colegas do curso de Gestão de Políticas Públicas aqui no Palácio dos Bandeirantes. Precisamos mostrar que vale a pena chamar os alunos do Campus Leste da USP. Que somos competentes”, diz, com orgulho de sua instituição.

Adquirir conhecimentos na prática, colaborar nas diversas áreas do setor público – para os alunos, o estágio representa uma iniciação. Quem os recebe tem a equipe reforçada, mas deve assumir o compromisso de proporcionar aos estagiários uma experiência de fato estimulante.

Perfil e satisfação dos estagiários

Uma pesquisa sobre o perfil e a satisfação dos estagiários – concluída pela Fundap em outubro de 2005, com uma amostra de 380 estagiários em atividade nos mais diversos órgãos da administração paulista – mostra que 63% acham que as atividades condizem com o plano de estágio apresentado pela instituição. Há, portanto, muito o que melhorar neste aspecto. Por outro lado, apenas 2% dos respondentes disseram que o estágio não contribui para a sua formação profissional.

Esse primeiro levantamento servirá como modelo em futuras pesquisas de satisfação e avaliação do estágio, além de inaugurar uma espécie de censo dos estagiários do setor público, a ser repetido a cada dois anos. O perfil atual dos estagiários é predominantemente feminino (63% são mulheres), tem idade média de 22 anos, faz seu primeiro estágio e permanece em média nove meses em atividade no estágio.

Segundo Fernando Nogueira, que – com Hironobu Sano, ambos pós-graduandos da FGV – coordenou a pesquisa, o papel do supervisor de estágio é fundamental: “A maioria das respostas satisfatórias ressalta a qualidade da supervisão, reforça a idéia de que as atividades estejam relacionadas com o curso acadêmico e destaca a necessidade de que um plano de estágio seja seguido”, afirma.

Nos comentários coligidos pela pesquisa, são valorizados os supervisores que têm paciência, que são capazes de ensinar, que definem direitos e deveres com clareza e coerência, que detêm conhecimento sobre suas áreas de trabalho e que mantêm uma relação de proximidade com os estagiários. Os aspectos negativos mais citados a respeito do estágio são a execução de atividades repetitivas ou sem relação com o curso universitário e o desnível entre a responsabilidade da tarefa e a capacidade do estagiário. “Há reclamações sobre os dois extremos: tarefas complicadas demais ou simples e enfadonhas demais”, relata Nogueira. O ideal é identificar um meio-termo, na busca por construir um plano de estágio equilibrado, que ofereça desafios ao estudante e propicie um bom aprendizado, em respeito a sua bagagem intelectual. Daí por que se torna tão importante a proximidade. É preciso estar sempre disponível para ouvir os estagiários e os integrantes das equipes que os recebem e, assim, ir corrigindo o rumo.

Iracema, a coordenadora dos planos de estágio da Furp, conta que, no órgão, cada área tem um supervisor. “Os supervisores participam da elaboração dos planos de estágio e acompanham o desempenho dos alunos.” Para ela, o estágio deve incentivar o trabalho em equipe: “Um dos objetivos dos estágios no Estado é tirar o estudante da posição de observador. Ele é chamado a participar”.

Leila Rezende Albanez Maria tem apenas 19 anos. Ela cursa o segundo ano de Sistemas de Informação, mas já cumpre atividades na área de informática da Furp. “Muitos colegas reclamam que em alguns casos não há supervisor de estágio. Aqui a gente tem supervisão, e sempre presente”, conta a estudante. Ela trabalha no setor de suporte técnico de um laboratório que é todo informatizado. “O legal é que a gente tem compromisso com o serviço. Eu sou incentivada a apresentar resultados sempre”, revela.

“Além de aprender, posso dar sugestões nos programas. Ajudo em várias etapas da produção, tenho autonomia, mas tenho acompanhamento também”, conta Antônio Carlos de Oliveira, 22 anos, estudante de Jornalismo e estagiário na TV Cultura. “Acho que posso aprender um pouco de tudo aqui. Mais do que teria chance em uma televisão privada, onde talvez ficasse confinado a atividades mais simples e repetitivas”, completa o estudante. O coordenador da pesquisa da Fundap confirma: “Os estagiários avaliam melhor o estágio quando têm desafios e são chamados a contribuir com inovação ou a ajudar a resolver problemas”.

Fora do âmbito técnico, o que os estagiários no setor público aprendem? A resposta, imediata, está na ponta da língua de cada um. “Responsabilidade e senso crítico”, diz Leila. Segundo Antônio, da TV Cultura, aprende-se a ser criativo, para tirar o máximo de uma estrutura que é limitada. Vinicius, estagiário de Farmácia, aponta o trabalho em equipe. E Marcelo , administrador na saúde, destaca a preocupação social: “O estágio na área pública acaba servindo para abrir um pouco a cabeça para a questão social. A juventude é egoísta, e essa atividade ajuda a mudar a visão”.

Nenhum dos estagiários ouvidos desanima com a impossibilidade de serem efetivados. O ingresso nas carreiras do Estado se dá por meio de concurso público. “Não desanimo, não. Concursos aparecem a toda hora. E a gente sai com boa formação para poder enfrentar o mercado de trabalho”, diz André Luís Rocha da Silva, 20 anos, estudante do terceiro ano de Direito e estagiário na Furp. “Trabalho na área de licitação, que está em grande crescimento”, comemora.

Programa rotativo

Segundo a professora Christina de Paula Leite, coordenadora da Cecop (Coordenadoria de Estágio e Colocação Profissional), da FGV, os melhores estágios são os que oferecem um programa rotativo. “O aluno passa por diversas áreas e conhece os vários setores da instituição”, explica. Christina argumenta que a melhor pergunta que um estagiário pode fazer é “por quê”. “Ao questionar, ele chama a atenção para coisas que nem são notadas no dia-a-dia. Muitas vezes os servidores já estão tão acostumados que nem percebem que podem fazer melhor, de outra maneira mais produtiva”, afirma a professora da FGV.

O estagiário, segundo Christina, pode muitas vezes ajudar a mudar essa rotina. Mesmo em um estágio aparentemente ruim, cabe ao aluno tirar proveito da situação. “Você aprende pelo lado bom e pelo lado ruim. Se é bom, o aluno aprende, pela experiência, como fazer bem, direito. Se é ruim, aprende como não fazer errado, como evitar os problemas que ele presencia no programa de estágio”, comenta. E a coordenadora da FGV dá um conselho aos estudantes: “Se você acha que há coisas ruins ou erradas, esta é uma boa oportunidade para propor novidades. Proponha, arrisque. Mesmo nos bons programas, nas boas práticas, é possível tentar uma forma diferente de trabalho.”

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