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AÇÕES PREVENTIVAS MELHORAM A SAÚDE DOS SERVIDORES

INICIATIVAS PIONEIRAS NO SETOR PÚBLICO, OS PROGRAMAS DE QUALIDADE DE VIDA MOSTRAM QUE É POSSÍVEL VENCER AS RESISTÊNCIAS E MUDAR A CULTURA ORGANIZACIONAL

POR LUANDA NERA

Há cerca de três anos, quando procurou o ambulatório da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo para tratar os sintomas de uma gripe, a oficial de laboratório Sirlei Aparecida Cardoso não imaginava que estava começando a transformar a qualidade de sua vida pessoal e profissional. Orientada pelo médico, passou por um check-up completo e surpreendeu-se com os resultados – suas taxas de triglicérides e colesterol estavam quase dez vezes acima do que a medicina considera como limite.

Hoje, com 22 quilos a menos e com os resultados dos exames normalizados, a funcionária do Instituto de Botânica continua fiel ao estilo de vida saudável que a curou. Todas as sextas-feiras, ela participa das reuniões do Galpes (Grupo de Apoio e Luta pelo Emagrecimento Saudável) e, diariamente, faz caminhadas durante o horário do almoço. “O apoio médico e psicológico que venho recebendo foi fundamental para o sucesso do meu tratamento. Além da minha saúde, meu desempenho profissional hoje é muito melhor. Muitos colegas de trabalho também aderiram ao programa de qualidade de vida depois que viram meus resultados”, enfatiza.

Histórias bem-sucedidas como a de Sirlei têm sido cada vez mais comuns entre os mais de 1300 servidores e prestadores de serviço que trabalham na secretaria. Os relatos são a prova de que o projeto Qualivida, implantado desde 2000, vem atingindo plenamente seu principal objetivo: melhorar a qualidade de vida do trabalhador. “Muitos funcionários não acreditavam que o projeto poderia dar certo, que as ações teriam continuidade. Mas vencemos essa resistência inicial e hoje eles procuram voluntariamente, sabem que só têm a ganhar ao participar das diversas atividades que oferecemos”, comemora Ana Maria de Souza Dias, assistente social e coordenadora do Qualivida.

Para atender a demanda dos funcionários e manter em ação as dezenas de atividades que o Qualivida oferece, Ana Maria conta com o apoio de representantes de outras áreas da secretaria. São cerca de trinta profissionais que, além de suas atividades cotidianas, comprometeram-se com a coleta de exames e o agendamento de consultas.

A assistente social explica que o foco inicial do trabalho era fortalecer as ações na área da nutrição, já que a maioria das doenças que os funcionários apresentavam era provocada principalmente por maus hábitos alimentares. Milene Massaro, responsável pela área de segurança alimentar da secretaria, admite que o trabalho voltado para o público interno ocorria de forma tímida: “Desenvolvíamos excelentes projetos para o público externo, mas os funcionários pouco eram atingidos. Hoje investimos muito em prevenção, inclusive junto às crianças da creche. O resultado dessas ações é que agora é muito mais comum as pessoas nos procurarem antes de ficar doentes”.

Dentre os diversos benefícios oferecidos pelo departamento de nutrição, os funcionários da Secretaria de Agricultura e Abastecimento têm à disposição um cardápio que – até pouco tempo atrás – só era oferecido em refeitórios de empresas privadas: a opção light, servida diariamente na hora do almoço. Quem tem algum tipo de restrição alimentar ou quer apenas manter um hábito saudável pode fazer uma refeição leve, planejada pelas nutricionistas.

Diversidade e qualidade. Na opinião de Ana Maria, essa é a receita de sucesso do projeto Qualivida: “Nossa função é oferecer o maior número possível de alternativas para todos aqueles que prestam serviços à secretaria, sempre com a preocupação da qualidade. Não nos interessa a quantidade. Se apenas cinco pessoas querem, por exemplo, participar da ginástica laboral ou das caminhadas, o grupo é mantido”. E é justamente com essa filosofia que Geraldo Márcio de Almeida, funcionário do departamento gráfico, reserva uma hora de seu dia, todas as quintas-feiras, para conversar com outros funcionários que estejam passando pelo problema que ele já está conseguindo superar: o alcoolismo: “Faz parte do meu tratamento esse grupo que montei aqui na secretaria. Ajudar os outros me ajuda também. E muito”.

A contribuição de Geraldo Almeida ao Qualivida é voluntária. Além do grupo de apoio aos alcoólatras, participa da produção do jornal interno do projeto, o “Bem Viver”. E assim como ele, outros funcionários dividem talentos e habilidades, voluntariamente, com seus colegas. “A colaboração de todos é fundamental para o Qualivida, já que não temos recursos para todas as atividades. Muitas ações são patrocinadas, como o coral”, explica Ana Maria Dias.

A coordenadora atribui a viabilidade do projeto a outro fator: a continuidade das ações, mesmo com mudança de governo.

Novas iniciativas

As perspectivas de fortalecimento de projetos e programas voltados à saúde do servidor mostram que o assunto está em pauta na administração pública. Se até pouco tempo atrás a discussão limitava-se a remuneração, promoção ou carga de trabalho, hoje a preocupação é com a condição integral do trabalhador. Em um dos maiores hospitais de São Paulo, o Instituto do Coração (Incor), mais de vinte anos de pesquisa começam a ser colocados em prática.

Lançado oficialmente há pouco mais de um ano, o Sistema Integrado da Qualidade começou a ser implementado nas dependências do Incor em setembro de 2005. O trabalho tem dois focos de atuação: o público externo (pacientes e familiares) e o público interno (servidores e prestadores de serviços em geral). Para o primeiro, a proposta é manter um padrão de excelência no atendimento, otimizando processos sempre com foco no cliente. Os gestores do Incor iniciaram o trabalho com o público interno procurando atender às principais reivindicações dos 762 funcionários, detectadas a partir de um questionário de avaliação do clima institucional. O estudo mostrou que grande parte das questões relacionadas a assistência médica, salário, programas de reconhecimento e de valorização dos talentos apresenta-se como sintomas latentes de insatisfação. Também foi diagnosticado que as queixas mais freqüentes dos servidores estão relacionadas a fatores ambientais, psicossociais – dores musculares, fadiga, irritação. A contra-imagem desse cenário pessimista foi o diagnóstico de que 85% dos funcionários gostam do que fazem.

É justamente no interesse dos servidores pelo trabalho que aposta o médico Marcelo Pustiglione, diretor técnico de Serviço de Saúde do Instituto do Coração: “Falar em saúde ocupacional é falar de prevenção primária, de gestão das pessoas, dos ambientes, dos processos e do conhecimento. É preciso ser proativo, e não esperar o funcionário ficar doente para depois nos preocuparmos com ele. O primeiro passo é fazer um bom mapeamento, respeitando as individualidades. Somente depois disso o programa deve ser elaborado. Outra dica é começar pela conscientização das lideranças, já que no setor público os hábitos estão mais enraizados, e é mais difícil incorporar mudanças”.

A psicóloga Vera Lúcia Bonato, assistente técnica de direção do Incor, acrescenta: “Os líderes podem ser facilitadores ou fatores de adoecimento dos funcionários. Os gestores precisam, antes de mais nada, identificar como está a qualidade de sua própria saúde, de sua vida pessoal e profissional. Um líder desequilibrado, desmotivado, pode desestruturar toda a equipe. Aí não tem programa de qualidade que consiga ser eficiente”, aconselha.

Intercâmbio

Os responsáveis pelos programas de qualidade de vida são unânimes sobre a especificidade de cada órgão público e a heterogeneidade dos servidores. Por isso, replicar projetos bem-sucedidos não garante o sucesso de um novo trabalho. Mas, para que novas iniciativas sejam estimuladas e alcancem melhores resultados, é preciso que os gestores troquem experiências e aprendam com aqueles que já vêm colhendo saldos positivos. Com o objetivo de colocar a qualidade de vida no centro das discussões, a Casa Civil iniciou um trabalho pioneiro de análise da situação do funcionalismo público estadual como um todo.

Essa tem sido a preocupação do psicólogo clínico Mário Porto, que desde 2004 vem pesquisando o comportamento dos servidores de São Paulo: “O primeiro alerta veio dos próprios sindicatos. A partir daí fizemos um estudo sobre o absenteísmo e percebemos que os índices estão aumentando ano a ano. Outro dado importante é o surpreendente crescimento dos transtornos mentais e comportamentais – correspondem a 30% das doenças que mais atingem os servidores. Em seguida aparecem as doenças do sistema ósseo-muscular e do aparelho circulatório. Isso está diretamente relacionado ao estilo de vida do trabalhador”.

Na tentativa de sensibilizar gestores públicos para o problema, Mário Porto traduziu em valores os prejuízos causados por licenças médicas de servidores: em 2004, o Estado perdeu R$ 258 milhões por causa da grande quantidade de licenças concedidas. Em 2003, o prejuízo não tinha sido muito menor: R$ 235 milhões. “Esses dados ajudam a definir focos de atenção para os programas de qualidade de vida. É preciso desenvolver iniciativas que se reflitam na melhoria da saúde física e mental do servidor – por exemplo ações em favor de uma alimentação mais saudável, contra o sedentarismo, contra o tabagismo e outros tipos de dependência química [a este respeito, ver, na edição número 02 de sp.gov, a reportagem ‘Apoio na medida certa']. Mas é importante que essas ações não se confundam com aquelas que dizem respeito apenas à vida privada de cada um. Do mesmo modo, não devem ser ações muito complexas a ponto de atrapalhar o desempenho no trabalho”, comenta.

Com o diagnóstico em mãos, a próxima investida da Casa Civil será criar um sítio para dar publicidade aos projetos de qualidade de vida que já vêm sendo desenvolvidos nas secretarias. “A idéia é formar uma rede de informações para o intercâmbio de experiências. As realidades no Estado são muito diferentes, não há uma fórmula mágica. Mas, pelo sítio, os gestores poderão conhecer o que está sendo feito e adequar as ações ao seu universo”, anuncia Mário Porto.

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