O uso de ferramentas tecnológicas que favorecem a circulação de informações tem propiciado o surgimento e a expansão de comunidades de prática e de aprendizagem, na Internet. Nesses ambientes, profissionais de várias instituições podem atuar em conjunto, de forma ágil e eficiente.
Criar e manter comunidades são ações da "gestão do conhecimento". Como outras de mesma natureza - montagem de portais corporativos, por exemplo -, permitem que os conhecimentos gerados em uma organização estejam disponíveis àqueles que deles necessitem, quando necessário e no formato adequado.
As comunidades virtuais ultrapassam os limites tradicionais dos grupos ou equipes de trabalho e as fronteiras de uma organização. Seus membros podem fazer parte de um mesmo departamento, pertencer a diferentes áreas de uma companhia ou a diferentes instituições. A participação baseia-se em relações de confiança e na contribuição que cada um traz para a rede.
Segundo o teórico organizacional Etienne Wenger, que cunhou o termo no início dos anos 90, três elementos definem uma comunidade de prática. O primeiro é o tema sobre o qual se fala (é preciso definir um interesse comum). O segundo são as pessoas, que têm de interagir e construir relações entre si em torno do tema. E o terceiro é a prática, a ação. Reunidas em comunidades virtuais, as pessoas aprendem juntas como fazer coisas pelas quais se interessam.
Comunidade de riscos geológicos no IPT
No Estado de São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) destaca-se dentre as organizações que põem em prática a gestão do conhecimento. Multidisciplinar, o IPT conta com 71 laboratórios e 51 seções técnicas - em várias áreas, como engenharia civil e de sistemas, química, geologia, metalurgia, mecânica, dentre outras. Cerca de 450 pesquisadores conduzem simultaneamente grande volume de projetos. Promover a sinergia entre os profissionais e divulgar boas práticas em projetos são desafios permanentes.
A gestão do conhecimento no IPT abriu espaço para o surgimento, há um ano e meio, de uma comunidade de prática (acessível em www.ipt.br ). Dentre os critérios que nortearam a decisão sobre qual tema escolher para o projeto-piloto estavam a necessidade de congregar pesquisadores de várias áreas e a relevância interna e externa do tema.
O grupo que atua com riscos geológicos passou a conduzir a experiência. Influenciou a escolha o fato de o IPT dispor de grande quantidade de dados e informações sobre o assunto. No final de 2002, havia-se constituído o Núcleo de Monitoramento de Riscos Geológicos (Nurg), que conduziu importantes projetos em parceria com outras instituições, como o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) - para o mapeamento de áreas de risco na região de Campinas, de áreas e inundações no Vale do Paraíba e de erosões no Estado de São Paulo -, a Sabesp, a Comissão de Concessões de Rodovias, o DER e a Fapesp - no programa de monitoramento da Serra do Mar. Participação destacada teve também na operação do Plano Preventivo de Defesa Civil, por meio do monitoramento de acidentes naturais em todo o Estado.
Além dos especialistas internos, a comunidade passou a contar também com bibliotecários e analistas de sistemas, de outras áreas técnicas do IPT. Para introduzir os novos conceitos, um consultor externo promoveu treinamentos sobre gestão do conhecimento.
Considerando-se que uma comunidade de prática habita um sítio na Internet, a primeira etapa do trabalho foi definir uma ferramenta de informática, o conteúdo inicial a ser disponibilizado e a taxonomia (isto é, o "dicionário" de termos que seria adotado para organizar as informações). Uma parceria com a Associação Brasileira das Instituições de Pesquisas Tecnológicas (Abipti) resultou em apoio financeiro para o desenvolvimento da ferramenta. "A Abipti tinha interesse em desenvolver e testar uma ferramenta tecnológica de comunidade de prática, e o IPT ofereceu-se como piloto. No âmbito do projeto Rede de Centros Especializados em Gestão Tecnológica, a associação promove, em quinze institutos selecionados dentre os seus associados, iniciativas visando à integração e à melhoria da gestão tecnológica. As comunidades de prática são exemplos de inovação em gestão e, atualmente, já há quatro implementadas, duas na própria Abipti e duas
Quanto ao conteúdo, Denise conta que a equipe discutiu longamente o que deveria ser publicado, como seria o portal e de que forma funcionaria. Apesar de a comunidade ser virtual, o contato pessoal foi e permanece muito importante. A comunidade foi lançada com uma área de notícias, atualizada periodicamente, biblioteca de textos e imagens, divulgação de eventos técnico-científicos, link s para páginas de Internet com temática semelhante e fóruns de discussão. Tudo disponível a todos os participantes. O dinamismo da comunidade depende de seus "animadores" (técnicos do IPT) e de seus membros, hoje cerca de 250 pessoas. "A partir de seus próprios computadores, os integrantes da comunidade podem, por exemplo, incluir novos textos, publicar uma notícia ou disponibilizar um link ", explica o geólogo do IPT Eduardo Soares de Macedo.
Entusiasta da comunidade, Macedo fornece detalhes curiosos sobre sua evolução: "Por paradoxal que pareça, foi preciso vencer resistências - internas e externas - para pôr em prática essa experiência de gestão do conhecimento. Ainda há quem evite divulgar seu trabalho científico, com receio de ser copiado, por exemplo. Mas a regra em uma comunidade de prática é trocar - dar e receber informação. Amplia-se a visibilidade da produção, o que só traz vantagens".
Participam da comunidade de riscos geológicos engenheiros, arquitetos, geólogos, geógrafos, tecnólogos, advogados, administradores, professores, estudantes de pós-graduação e graduação, funcionários de prefeituras, policiais militares e bombeiros, integrantes de ONG e da comunidades em geral. O interesse comum que une esse conjunto eclético é compreender as situações que envolvem riscos naturais. Além de fomentar a produção científica, espera-se que a comunidade possibilite a condução de campanhas de esclarecimento sobre riscos, dirigidas às populações afetadas.
"A ocupação diversificada do Estado de São Paulo torna as situações envolvendo os riscos naturais um problema complexo, mas de necessário equacionamento. Por outro lado, os avanços técnico-científicos e as experiências na prevenção de acidentes têm mostrado ser possível conviver com as ameaças de forma menos vulnerável", explica Macedo. "A comunidade de prática permite que os conhecimentos gerados nas instituições que conduzem projetos e pesquisas nessa área fiquem acessíveis, incentivando o reaproveitamento de experiências e resultados. Não podemos perder de vista que o que produzimos é de interesse público."
Para o IPT, o projeto-piloto traz benefícios adicionais. Uma vez consolidado e ampliado para outras áreas, insere a organização nos fluxos externos de conhecimento e fortalece seu papel, na integração em redes com outras instituições, empresas, universidades e cadeias produtivas.
Comunidade na Fundap
A Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap) criou, em parceria com a Casa Civil, uma comunidade virtual de aprendizagem inserida em seu Curso de Licitação e Gestão de Contratos de Serviços Terceirizados, oferecido no formato de educação a distância (EAD) e dirigido a servidores que lidam com compras e contratações nos diversos órgãos do Estado de São Paulo (informações e inscrições em www.ead-fundap.sp.gov.br ).
A comunidade, iniciada em outubro de 2003, é um ambiente de compartilhamento de informações, conhecimentos e experiências, sempre monitorado por mediadores pedagógicos e especialistas. Com o tempo, o espaço ganhou dinâmica própria. Após completar os módulos do programa, o aluno segue trocando informações por meio da comunidade, e alguns passam a contribuir, voluntariamente, como mediadores e especialistas. "Criou-se uma identidade forte entre os participantes da comunidade, carinhosamente apelidada de 'Amarelinha', por causa da cor predominante nas páginas do sítio", diz Christine Fazzi , da equipe de EAD da Fundap.
Quase mil pessoas passaram pela comunidade. Cerca de quinhentas são ou foram participantes ativos, ou seja, enviaram mensagens. Profissionais mais experientes auxiliam iniciantes, e todos ajudam uns aos outros a resolver dúvidas relacionadas a licitações. "Os participantes sentem-se gratificados em perceber o quanto sua colaboração pode auxiliar um colega e o quanto essa sistemática vem contribuindo para o fortalecimento e o enriquecimento do conhecimento do grupo. Todos têm algo a aprender e a ensinar", conta Suzanete Zahed Coelho, da equipe de EAD. Andrea Correa , da mesma equipe, reforça: "Os participantes da comunidade descobrem talentos específicos, que muitas vezes desconheciam".
Maria das Dores Lima Ferreira, diretora técnica do Núcleo de Compras e Contratos da Secretaria Estadual da Fazenda, uma das mais atuantes do grupo, concorda: "Entro na comunidade todo dia, de manhã cedo ou no final do expediente. O contato com os colegas é muito proveitoso. Discutimos detalhes de pregões, disponibilizamos modelos de editais de contratação, divulgamos legislação nova. O clima é de colaboração e amizade. 'Nunca foi tão gostoso aprender' é uma frase que eu sempre repito aos colegas da comunidade".
Aos poucos, essa nova forma de aprendizagem vem ganhando espaço na administração pública, ao permitir a socialização de informações e boas práticas, o que é especialmente proveitoso para servidores que trabalham em departamentos enxutos. O sargento Fábio Ferrão Videira, encarregado dos contratos terceirizados da Unidade Gestora Executora do Centro Médico da Polícia Militar e integrante da "Amarelinha", entusiasma-se com a experiência. "Quando tenho uma dúvida, ponho em discussão na comunidade. Assim me preparo melhor para encaminhar os problemas ao meu superior." Ferrão valoriza as relações de confiança que se estabelecem no ambiente virtual. "Não há competição, como às vezes acontece entre colegas. Agimos sempre como aliados." Para ele, a comunidade é tão ou mais importante do que o curso. Destaca, no entanto, que encontros presenciais (já houve quatro deles, o quinto acontecerá em abril) são fundamentais para aproximar os internautas.
Tania Tavares da Silva, da equipe de EAD da Fundap, resume: "Essa experiência mostra que o conhecimento que o governo quer incrementar encontra-se, de algum modo, imerso na sua própria estrutura. Os especialistas existem, porém estão incógnitos e, possivelmente, ignorados. A criação da comunidade virtual pode ser a grande chance de o governo resgatar o potencial intelectual e humano de seus servidores, valorizando sua capacidade de pensar, de criar e de se relacionar".
< Da Redação, com a colaboração de José Chrispiniano |