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. entrevista > Carlos Henrique de Brito Cruz

MEDIR, MOSTRAR, DEBATER

REITOR DA UNICAMP REFLETE SOBRE FATORES QUE ESTIMULAM A EFICIÊNCIA E A INOVAÇÃO NAS ORGANIZAÇÕES PÚBLICAS POR NEIDE S. HAHN E CRISTINA PENZ

Inovação, produção de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento são assuntos que interessam profundamente Carlos Henrique de Brito Cruz. engenheiro eletrônico formado pelo ITA, com mestrado e doutorado pelo instituto de Física da Unicamp, ele concilia sua atividade como físico experimental (estuda os fenômenos ultra-rápidos) com uma carreira de destaque como administrador. Brito Cruz é reitor da Unicamp desde 2002 e presidiu a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) de 1996 a 2000. Esta entrevista a sp.gov focalizou o tema da inovação no setor público.

> É mais difícil inovar no setor público? O imobilismo, a inércia organizacional - que se imagina mais intensa nesse setor - é um obstáculo para a inovação ?

Brito Cruz. Acredito que no setor público seja possível inovar tanto quanto em qualquer outro setor. A dificuldade não é maior do que a enfrentada por grandes empresas, que têm uma inércia grande também. Talvez o que motive esse pensamento sobre o setor público - sobre a ausência de inovação - seja a "má fama" que ele adquiriu injustamente. As pessoas tendem a associar organizações públicas a imobilismo. A reclamação muitas vezes é legítima, mas a má fama é indevida e prejudicial. Há muitas organizações públicas que funcionam bem no país.

De fato, com freqüência, ocorre de os gestores públicos não estarem preparados ou não demonstrarem suficiente interesse em desempenhar excepcionalmente bem seu papel, em contribuir para o cumprimento da missão da organização. E isso pode estar relacionado à dificuldade que há no setor público para recompensar o trabalho mais bem feito. No entanto, mesmo com essas dificuldades, acho que quando o gestor público quer de fato inovar, quando se dispõe a usar sua capacidade intelectual para isso, congregando a capacidade intelectual de outras pessoas, podem-se obter bons resultados.

> Independentemente do setor, o que estimula a inovação?

Brito Cruz. Comecemos pelo ambiente externo. No setor privado, a competição é o grande motor da inovação. As empresas inovam para superar seus concorrentes, para obter o monopólio temporário de uma boa idéia. No setor público esse tipo de competição não existe. Do ponto de vista do ambiente externo, o que há é a pressão social por um bom serviço público. E há eleições periódicas, embora eu tenha certa dificuldade em identificar nesse evento um motor para a inovação. De certa forma, porém, os ocupantes dos cargos de nível mais alto têm de contaminar os outros com o desejo e o objetivo de fazer bem feito, de fazer melhor. E em geral os cargos mais altos estão sujeitos a um mandato temporário.

E não me refiro só ao Poder Executivo. O Legislativo também se preocupa com o modo como são administrados os serviços públicos, uma vez que lhe cabe aprovar o orçamento dos órgãos públicos. Como presidente da Fapesp, na interlocução com o Legislativo, pude notar um significativo progresso nessa área, no Estado de São Paulo. Os legisladores demonstram uma atenção maior, um real interesse em esmiuçar os detalhes de funcionamento das organizações, em função dessa autoridade legítima que eles têm sobre o orçamento.

> Devem defender o interesse público...

Brito Cruz. É verdade. Cabe a eles perguntar: por que algo custa aquele tanto? Por que fazer deste jeito e não de outro? Eu diria que, progressivamente, a Assembléia Legislativa vem dedicando às ações do Executivo uma atenção positiva, construtiva. As organizações que souberem ouvir têm a ganhar, podem avançar, identificar novas oportunidades. É preciso ter em mente que o Legislativo está em contato com o eleitor. É preciso prestar atenção no que os integrantes do Legislativo falam, porque por trás há questões que interessam ao contribuinte.

> E o ambiente interno? Como administrar a inovação dentro das organizações públicas? O que leva as pessoas a deixar de fazer tudo do mesmo jeito e a buscar fazer de um jeito novo?

Brito Cruz. Acho que um dos aspectos fundamentais é saber para quem se está trabalhando. Cabe aqui destacar a pouco empregada palavra "contribuinte". As pessoas que pagam impostos esperam em troca um serviço público de boa qualidade. E a equipe que presta o serviço precisa saber bem o que se espera dela, o que é necessário fazer e como buscar caminhos para melhorar.

Há um fator interessante a comentar. Com alguma freqüência o setor público é subfinanciado, pelas mais diversas razões - restrições orçamentárias, falta de crescimento da economia etc. Com o passar do tempo, esse subfinanciamento gera um ambiente crônico de escassez. Muitos profissionais passam a usar o subfinanciamento como uma justificativa para a ineficiência. "Não temos dinheiro, por isso o serviço não é bom. Se tivéssemos mais recursos, faríamos melhor", desculpam-se. Isso às vezes é verdade. Mas há situações em que se pode melhorar o desempenho, sem que isso custe mais dinheiro. Custa o esforço de organizar.

> Há como amenizar esse efeito negativo da escassez?

Brito Cruz.
Indicadores objetivos e medidas de resultados ajudam muito. O Brasil tem pouca cultura nessa área; mede-se pouco. Refiro-me a indicadores de qualidade, de eficiência, a contar quantas pessoas se atendeu, quanto custou. Nesse aspecto vejo grande diferença em relação a alguns setores da iniciativa privada, nos quais se mede cada detalhe: o material usado, as horas empregadas no trabalho, o salário. Quando não se empregam indicadores - o que ainda é freqüente no setor público - o moral da equipe tende a ser baixo. Ninguém enxerga o resultado do trabalho. Com a ajuda de indicadores, as pessoas passam a compreender melhor seu papel, vêem mais claramente o que fazem. Obtêm um testemunho de sua ação. De certa forma, começam a atuar em função de metas, buscam superá-las, trazem idéias.

Nas universidades, verificamos uma evolução em relação a isso. Há vinte anos, essas instituições não publicavam anuários com seus indicadores. Se alguém quisesse saber quantos alunos tinha a universidade, quantos professores, precisava telefonar para o Departamento de Pessoal. Aprendeu-se a olhar para esses indicadores, a disseminá-los para a comunidade. Os funcionários passaram a ter uma noção melhor das ações e dos números da organização, e do seu papel nisso tudo.

> A construção de indicadores é uma área específica de conhecimento. Precisamos aperfeiçoar as metodologias de avaliação. É o caso dos indicadores de impacto. Não se pode isolar a ação decorrente de uma política pública, de outras variáveis. Muitas vezes se usam pesquisas de opinião...

Brito Cruz. Mesmo as pesquisas de opinião são significativas, embora sempre tenhamos de ler esses indicadores com um certo cuidado. Veja o caso das organizações sociais que administram hospitais, aqui em São Paulo. A Unicamp administra um hospital em Sumaré, por meio de um convênio.

As pessoas atendidas no hospital são convidadas a avaliar se foram bem atendidas ou não. A pesquisa traz resultados importantes para os administradores. Há prêmios para incentivar o bom desempenho. O hospital ganhou um recentemente, o que estimula muito os funcionários.

> As regras dos hospitais geridos por organizações sociais e convênios estão sendo aplicadas também nos hospitais da administração direta.

Brito Cruz
. E por que não se aplicavam antes, não é? Não havia nenhum impedimento para isso. As organizações públicas podem e devem trabalhar com avaliação de resultados. Inovação depende de avaliação.
> O exemplo das organizações sociais é interessante. O modelo surgiu como resposta a uma situação de crise. Havia dezessete esqueletos de hospitais que precisavam ser concluídos e operados. E o Estado não tinha condições de fazê-lo, no final dos anos 90. A crise fez surgir a inovação. E a "competição" com o padrão privado foi positiva para os hospitais públicos.

Brito Cruz. Creio que a pressão dos usuários tende a se tornar mais forte. E o benchmark sem dúvida ajuda.

> Que outros fatores estimulam a inovação no ambiente interno?

Brito Cruz. As organizações são muito diferentes. É difícil generalizar. Na universidade, por exemplo, que é o lugar do conhecimento, todos têm opinião a dar. É um sistema aberto, que permite o trânsito e o debate de idéias. Minha experiência diz que quanto mais se ouvem as pessoas melhor é o resultado. Surgem idéias melhores, ou as idéias melhoram. Mas o debate deve ser qualificado, organizado. Voltamos à questão dos indicadores objetivos. Debate de opinião termina em briga. A objetividade é fundamental.

> Qual o papel do gestor público?

Brito Cruz. A liderança é muito importante. O gestor deve ser qualificado, sem dúvida. Passar por treinamentos, especializar-se. Mas é necessário que ele estimule o surgimento de novas idéias, que discuta internamente formas mais eficazes de atuação. Empresas de pesquisa têm em geral um departamento de pesquisa e desenvolvimento, encarregado de pensar coisas novas. As organizações públicas precisam encontrar formas de gerar e disseminar o conhecimento necessário para funcionarem melhor. <