APOIO NA MEDIDA CERTA |
ÓRGÃOS PÚBLICOS ESTRUTURAM GRUPOS DE APOIO A DEPENDENTES QUÍMICOS POR JURANDYR PASSOS
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A dependência química - termo que veio substituir jargões como "vício" e "toxicomania" - é uma doença à qual toda pessoa pode ser vulnerável. Dependentes químicos podem ser encontrados em todos os segmentos da sociedade, no Brasil e no mundo. São de ambos os sexos, de raças variadas e de todas as faixas etárias. Estão presentes em empresas, onde exercem todo tipo de atividade e ocupam cargos em vários níveis.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a dependência química afeta em média, direta ou indiretamente (os chamados co-dependentes: parentes, amigos e colegas), 10% da população mundial. As drogas lícitas, como álcool e tabaco, lideram o consumo no mundo todo. Apesar de tal nível de incidência, ainda há muita desinformação sobre essa condição de saúde, o que gera preconceito e dificulta o atendimento de pacientes.
O primeiro passo, portanto, é compreender que dependência química, como doença que é, deve ser encarada do ponto de vista epidemiológico. O segundo é saber como identificar, conviver e, sobretudo, como ajudar quem se encontra nessa condição de saúde. O terceiro é tratar - e, para isso, é indispensável recorrer aos especialistas - médicos, psicólogos e assistentes sociais - para evitar que mesmo a melhor das intenções acabe agravando o problema. O que se pode esperar é a cura ou a redução dos danos. |
Atenção ao tema
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Institucionalizar o atendimento aos portadores de dependência química significa implantar uma gestão competente dos programas de assistência e prevenção da doença. Muitas empresas e órgãos públicos paulistas - como Metrô, Sabesp, CPTM, Cetesb e Secretarias da Fazenda e da Agricultura - já desenvolvem esses programas. A Universidade de São Paulo tem o Programa de Prevenção e Tratamento do Uso de Drogas da USP (Produsp), criado em 1995, sob a orientação técnica do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), do Instituto de Psiquiatria da universidade. O Grea realiza, desde 1981, pesquisas e programas de prevenção do consumo de drogas. Em 1983, criou o Programa de Recuperação de Alcoólatras Servidores (Pras), no Hospital das Clínicas de São Paulo.
O Produsp atinge uma população superior a 100 mil pessoas, incluindo alunos, professores, funcionários e seus dependentes nos campi da USP, na capital e no interior. Além de prevenção e tratamento, o programa começa a apresentar os resultados das suas primeiras pesquisas, como uma avaliação das conseqüências do alcoolismo entre os funcionários da Prefeitura da Cidade Universitária de São Paulo, realizada pelo Dr. Ricardo Abrantes do Amaral. |
Tratamento profissional |
A prevenção é a melhor opção por duas razões básicas. A primeira é custo: "Prevenir custa sete vezes menos do que tratar; e tratar custa quatro vezes menos do que repor", diz o Dr. Luiz Alberto Chaves de Oliveira, secretário-executivo do Conselho Estadual de Entorpecentes (Conen). A segunda é pela eficicácia: "Queremos ajudar as chefias que se sentem responsáveis, mas às vezes não sabem como agir nesses casos", declara Maria Teresa Marques de Abreu Solemene, diretora técnica do Centro de Acompanhamento e Integração (CAI) do Departamento de Recursos Humanos da Secretaria da Fazenda. Para ela, é preciso agir rápido, pois a tendência de se fazer "vista grossa" só agrava o problema e faz desperdiçar recursos públicos que seriam mais bem investidos na prevenção.
Maria Teresa informa que o CAI é uma unidade multidisciplinar, que acompanha, aconselha e apóia as chefias, os funcionários dependentes e suas famílias. Por meio dele, constituiu-se uma rede, integrada aos Centros de Atenção Psicossocial, ao Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) e a grupos de auto-ajuda, como os Alcoólicos Anônimos (AA) e o Alanon (destinado a ajudar os familiares e amigos de dependentes do álcool).
A Secretaria da Agricultura adotou caminho semelhante. A necessidade de prestar assistência sistemática aos dependentes foi levada aos dirigentes do órgão e aprovada. Constituído em 2002, o grupo de apoio passou a atuar junto a funcionários dependentes que o procuraram espontaneamente ou por terem sido encaminhados pelas chefias. "O atendimento a dependentes de álcool integra as ações do Qualivida - nosso programa de qualidade de vida. Com relação às outras drogas, a procura tem sido mais para familiares em atendimento individual e encaminhamentos externos. Em alguns casos há o uso combinado do álcool com outras drogas", revela Ana Maria de Souza Dias, assistente social da secretaria. O apoio da direção é vital para o sucesso dos programas de atendimento, confirma o Dr. Luiz Alberto, do Conen, que implantou o programa da Fepasa em 1987 e ainda colabora com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. "A alta direção precisa 'comprar' a proposta e acreditar que ela vale a pena", completa ele. |
Fatores ambientais |
| Embora ainda não existam pesquisas conclusivas sobre a incidência de dependência química no setor público, sabe-se que ela é o resultado de uma série de fatores sociais, psicológicos e físicos, os quais podem ser propiciados até mesmo pelo ambiente e pelas condições de trabalho. O Dr. Dartiu Xavier da Silveira, diretor do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a incidência pode variar muito dentro de uma mesma organização. Na própria Unifesp, por exemplo, foi detectado um índice de dependência superior no pronto-socorro e no atendimento de emergência. Numa empresa frigorífica, o índice mais alto foi encontrado entre os trabalhadores da câmara fria. "É preciso fazer um diagnóstico da empresa antes mesmo de avaliar os pacientes", sustenta o Dr. Dartiu.
Seja qual for o grau de incidência da dependência química na organização, uma coisa é certa: muita atenção e um enfoque profissional são indispensáveis para lidar com o assunto.
"Os índices são alarmantes e crescentes", ressalta o Dr. Artur Guerra, médico psiquiatra do Grea. "Mas não adianta 'medicalizar' a questão. O ambiente influi bastante, e quem resolve esse problema é o RH e o serviço social da organização", opina ele. "O Produsp deu certo porque trabalha com metas bem definidas e avaliação constante", revela. < |
> No MRE, Núcleo centraliza o atendimento aos dependentes |
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