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LIÇÃO BEM FEITA |
ESCOLA ESTADUAL DÁ EXEMPLO DE EFICIÊNCIA E GANHA RECONHECIMENTO NACIONAL Por Cristina Penz |
Quando fala sobre a escola que dirige desde janeiro de 2002, a professora Sônia Maria dos Santos Barbosa usa com naturalidade termos e expressões que soam familiares aos ouvidos de qualquer gestor contemporâneo, de qualquer área: descentralização de poder, racionalização no uso de recursos, accountability, formação profissional continuada, qualidade na prestação de serviços, gestão participativa, responsabilidade social. No caso da Escola Estadual Francisco Cristiano Lima de Freitas, de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, o discurso reflete uma prática reconhecida.
A escola foi uma das seis finalistas da edição 2003 do Prêmio Nacional de Gestão Escolar, realização conjunta do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), da União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação (Undime), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Fundação Roberto Marinho. A distinção maior, concedida em 26 de agosto deste ano, coube a uma instituição pernambucana. Para chegar entre as seis, a Francisco Cristiano foi selecionada como a de maior destaque dentre as 110 escolas paulistas que se haviam candidatado. No país, foram 2.190 inscritos.
Quem visita a escola de São Bernardo começa a compreender, logo ao entrar, as razões de seu sucesso. O prédio, localizado no Jardim das Orquídeas, ao lado da Rodovia dos Imigrantes, assemelha-se a tantos outros da rede pública. A escola é bem conservada e limpa, mas o que de fato chama a atenção é a imensa quantidade de trabalhos de alunos, desenhos e pinturas espalhados pelas paredes. De imediato, fica evidente a disposição em divulgar a produção de alunos e professores, de expor e compartilhar resultados do trabalho conjunto.
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Sala-ambiente |
A implantação de salas-ambiente acompanha essa tendência. Na Escola Francisco Cristiano, são os alunos, e não os professores, que mudam de sala no decorrer da jornada. Nos ambientes destinados às diversas disciplinas - português, matemática, história, geografia, ciências, inglês -, trabalhos escolares, painéis, móbiles, objetos, livros e outros recursos didáticos fazem referência ao tema de estudo e servem de apoio à atividade do professor. Para especialistas em educação, o método favorece o processo de ensino-aprendizagem, ao estimular a pesquisa e a experimentação no local de estudo. A diretora revela que sua implantação exigiu muita negociação e diálogo com professores, funcionários de apoio, alunos e pais, de modo a vencer resistências. |
Pesquisas e contratualização |
Discutir amplamente o projeto pedagógico já é prática corriqueira em muitas escolas, e constitui-se em um dos pontos fundamentais da gestão democrática. No caso da Francisco Cristiano, soma-se a isso a utilização consistente de mecanismos que permitem monitorar a implementação do projeto. No final de 2002, por exemplo, a escola realizou pesquisa com pais e alunos, com o objetivo de avaliar a qualidade do trabalho didático e o atendimento. Em 2003 essa pesquisa passou a ser semestral. Em 2004, bimestral. Os dados coletados são tabulados e apresentados à comunidade escolar. Segundo a diretora, as pesquisas "balizam nossas ações, apontando acertos e falhas".
Com a ajuda dos professores, os alunos preparam a cada dois meses um portfólio individual, no qual reúnem sua produção mais relevante no período. É com base nesse material que acontecem as discussões durante o Conselho de Classe.
Tradicionalmente, o Conselho de Classe constituía-se em uma reunião com a equipe docente, os coordenadores e a direção. As Normas Regimentais Básicas para as Escolas Estaduais, editadas pelo Conselho Estadual da Educação em 1998, já previam a participação dos alunos nesse colegiado. "Dois anos atrás, fizemos a experiência, em uma turma, de chamar também alunos e responsáveis. Foi difícil de conduzir, mas valeu a pena. Hoje, em todas as séries, as reuniões acontecem assim, com participação ampla", entusiasma-se Sônia.
Todos estão amadurecendo no decorrer do processo. Durante os encontros, os pais verificam os portfólio e têm acesso aos relatórios com as observações dos professores, o que permite acompanhar a evolução dos filhos. Os professores expõem seus métodos, debatem propostas de melhoria, individuais e de grupo. Os alunos são iniciados em uma auto-avaliação, o que representa significativo avanço em relação a conferir no boletim as notas que lhes foram atribuídas. Ao final, estabelece-se um "contrato", no qual os envolvidos assumem compromissos para o futuro e traçam objetivos comuns.
A co-responsabilidade no processo de aprendizagem aparece bem exemplificada nesse questionário entregue periodicamente aos pais. "Neste bimestre, quantas vezes você perguntou ao seu filho: 'O que você aprendeu hoje?', Quantas vezes você olhou o caderno de seu filho?, O que você achou das avaliações apresentadas no portfólio?, O que faltou para que seu filho tivesse um resultado melhor?". O conteúdo das respostas, nesse caso, tem menos importância do que o ato de fazer as perguntas.
"Quando me refiro a nossas ações de avaliação, gosto de empregar o termo em inglês accountability, que remete a responsabilização, prestação de contas", resume a diretora. |
Apoio ao professor |
Para atender aos seus 1.925 alunos - de ensino fundamental, médio e de jovens e adultos -, a Escola Francisco Cristiano conta com um quadro de setenta professores. A rotatividade (a cada ano substitui-se parte da equipe) é uma dificuldade real a ser superada. "Valorizar o educador é condição necessária para uma boa gestão escolar", defende Sônia. A diretora menciona pequenos detalhes, como o cafezinho antes da primeira aula da manhã, e destaca o compromisso em disponibilizar materiais de trabalho adequados e em proporcionar formação continuada.
O depoimento do professor de matemática Edmar Fernandes Madeira sintetiza bem esse aspecto: "Logo na primeira reunião, ficou perceptível a organização administrativa e pedagógica da escola, pois todos os professores receberam uma pasta com horários, programas, atividades, formulários, mensagens etc. A diretora conduziu a reunião apresentando a escola, projetos e resultados obtidos no ano passado na unidade escolar. Enfatizou as metas a serem atingidas. Em seguida, cada professor pôde expressar suas expectativas profissionais em relação à escola. Pude observar que os professores que já eram da casa estavam satisfeitos por terem retornado à escola, e os professores novos expressavam admiração diante da organização e aspecto visual".
Márcia Regina Soares, coordenadora pedagógica da escola, discute com os professores o trabalho reunido em seus portfólios (além dos alunos, também eles preparam suas compilações). "Quando introduzimos a metodologia de compartilhar a produção e avaliá-la, houve casos de professores que, contrariados, preferiram não permanecer na escola no ano seguinte", diz Sônia. A diretora defende o método: "Veja, por exemplo, o caso da avaliação dos alunos. Cabe aos professores elaborar suas provas. Ao fazê-lo, alguns usam técnicas que se mostram mais eficazes, o que se vê ao comparar os resultados. É evidente que abrir o que acontece em sala de aula provoca insegurança. Com o tempo, porém, os professores compreendem que este é o melhor caminho para elevar a qualidade do trabalho, para fortalecer a equipe". Em contrapartida, também a Coordenação Pedagógica e a Direção submetem sua atuação à apreciação dos colegas, em pesquisas periódicas. |
Descentralização |
Docente de história da rede estadual por quatorze anos, Sônia iniciou sua carreira como diretora na Francisco Cristiano. "Parti de minha experiência anterior e tenho buscado superar certos problemas que vivenciei como professora. Por exemplo, a equipe dirigente deve estar sempre disponível. Para isso, descentralizar tarefas de direção é imprescindível. Cícero da Silva Cavalcanti e Telma Aparecida Medeiros, os vice-diretores, são meus braços direito e esquerdo", conta. Cícero, também formado em história, atua durante o dia. É ele quem dirige aos alunos, todas as manhãs e tardes, cordiais "bom-dia" e "boa-tarde". Telma, formada em matemática, além de representar a direção no período noturno, cuida das contas da escola.
"Os recursos de que as escolas dispõem são sempre escassos, considerando-se suas muitas necessidades. Devemos procurar fazer uma boa gestão financeira e administrativa. Cada detalhe é importante", afirma Sônia. "Quando assumi a direção, verifiquei que o preço pago por produtos de limpeza era excessivo. A solução foi passar a adquirir os produtos de fabricantes ou atacadistas. Compramos mais, com menos". A diretora também cita parcerias com comerciantes locais, para levantar recursos e adquirir equipamentos, e a boa relação com a Associação de Pais e Mestres.
Cabe mencionar, ainda, as ações de responsabilidade social, que ajudam a formar cidadãos solidários. Campanhas cooperativas e comunitárias integram o projeto pedagógico da escola. O vice-diretor Cícero exemplifica: "Recolhemos doações mensais de alimentos para redistribuir aos alunos mais carentes de cada turma". Alunos trabalham como voluntários, na secretaria, no projeto Escola na Família e na Biblioteca (implantada em 2002). |
Boas notas para a escola |
O esforço em introduzir tantos mecanismos de aperfeiçoamento de gestão repercute diretamente nos níveis de aproveitamento escolar. O alunos da Francisco Cristiano apresentam bons resultados no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), com índices superiores à média estadual.
A reprovação e o abandono vêm declinando. Nos últimos dois anos, a taxa de abandono caiu 9,6% no ensino médio, uma das faixas mais críticas. Nesse período, o desempenho dos alunos sofre a influência de problemas sociais mais abrangentes e complexos. Os jovens ingressam cedo no mercado de trabalho informal para contribuir com a renda da família. Desistem de estudar ou freqüentam esporadicamente a escola, apenas para garantir vaga. A seu modo, a escola está ajudando a solucionar esse problema. <
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| > Gestão eficaz é uma operação de multiplicação de ações |
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